Nesta senda de livros devorados entre horas inertes em que a imaginação plana para além do corpo, não posso deixar de referir a descoberta dos de ficção… o primeiro que tenho de salientar e não porque tenha sido o primeiro a ser lido, nada mais falso, mas o primeiro que me trouxe a crueza do ser humano na eteriedade da palavra: Milan Kundera.
Foi-me apresentado lá por volta dos 16 por uma professora de liceu de jornalismo, de quem não me lembro o nome nem por quem tivesse especial simpatia, mas que fez a magnífica acção de nos obrigar (à turma) a fazer um trabalho de comparação entre filmes e obras. As opções eram “Em nome da Rosa” de Umberto Eco, que já conhecia e gostava e “A insustentável leveza do ser” de Milan Kundera.
Como sempre optei por aquilo que é mais complicado para se executar na vida. Claro que optei por aquilo que não conhecia. Heranças dos valores dos meus avós, em que o facilitismo não era de facto um modo de vida. Bem dita herança, Milan Kundera entrou na minha vida e invadiu-a por completo.
Escusado será dizer que li e tenho tudo do autor e que o meu favorito não foi a “Insustentável leveza do ser” mas sim “A Imortalidade” em que tal como o autor concordava que aquele sim, deveria ter o título do primeiro.
Esta crueza na forma como as personagens são apresentadas, passou a ser a forma como eu observava os outros, sem julgamento e sem a cor da fantasia. Passar a ver os outros tal como eles são, sem preconceitos, rigorosamente como se apresentam.
Essa clareza é fundamental ainda hoje. É ela que me permite a apreensão de tantas realidades, das histórias de tantos e até das minhas, não como protagonista, nem pensar, mas antes quase como se interiormente fosse um narrador atento ao pormenor do gesto, do olhar da palavra.
Por incrível que pareça, foi com Milan Kundera que passei a ver a “árvore” neste caso, o ser humano per si. E sempre com muita curiosidade, acrescente-se, pois quase sempre é surpreendente mesmo quando previsível.
Céus, quando eu penso naquilo que as palavras dos outros me dão, na sua forma estruturada, no seu significado, no seu jogo de sobreposições de imagens, realidades, nas suas invenções, no sonho, na transposição que o ser humano é, e naquilo que pretendem alcançar, as eternas perguntas de quem sou, para onde vou, de onde vim, o que faço aqui…
A importância dos outros…
Como seria possível para mim ter tempo de saber já tanto se não fosse o tempo que os outros dedicaram em deixar-me lê-los. Seria impossível apreender tanto em tão curto tempo que o meu corpo perece.
A herança dos outros para além do tempo…
Às vezes o pensamento divaga naquilo que já foi perdido, às vezes ponho-me a pensar em quantos papiros na biblioteca de Alexandria que se perderam de suma importância para o Homem.
Quantos séculos perdidos em descobrir aquilo que por outros já fora descoberto…
Senão repare-se, somente no Sec. XVII e através da dialéctica de Descartes, que diga-se de passagem sempre me irritou como filósofo, mas fora estes apartes, só nessa época o homem considerou para todos os efeitos que no conhecimento do “objecto”, este não era inerte mas sim activo, e que nesse processo havia a mecânica do que hoje vulgarmente chamamos de feedback. Impressionante só no Sec. XVII o homem conseguiu colocar por palavras algo que fazemos desde os primórdios do tempo.
Essa lentidão da diagnose das palavras, espanta-me. O que se terá perdido ao longo dos tempos quer por catástrofes naturais, quer por pior pela catástrofe causada pelos fanatismos humanos…
Na ciência, extraordinário pleno Sec. XVI, se pensarmos não foi assim há tantos anos, o Heliocentrismo por Copérnico, que coitado pagou com a vida uma evidência, que o fanatismo religioso não permitia. E será que nos papiros de Alexandria isso já não estava descoberto, tenho muitas dúvidas que não.
Esta herança das palavras são o conhecimento do nosso futuro, nenhuma pode ser desperdiçada, nem mesmo aquela que nos parece uma evidência ou uma perfeita idiotice no momento.
É na troca dessa palavra que os homens vão lentamente progredindo e quem sabe um dia talvez esse progresso não nos leva à final evolução de ver respondidas as perguntas de que vive a “Mater de todas as ciências” a filosofia.
Este texto foi feito com a música que o Albertino Silva foi colocando para nosso deleite no faceboock. Os meus agradecimentos pela óptima música! Ela também é uma componente muito importante para mim, ela e qualquer outra forma de arte mas isso fica para outro dia.
Cascais, 13 de Março de 2011
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