Nunca compreendi bem porque e provavelmente nem tenho que o fazer o porquê desta minha divisão cerebral. Razão tinha o Pessoa em fazer os seus heterónimos, pois afinal resta sempre a pergunta será que ele era mais de algum deles ou nenhum de todo.
Seja como for os meus pensamentos dividem-se pelo menos em 4, o lado utópico/anarca, o lado racional, o lado social e o lado místico, quase como se de 4 indivíduos perfeitamente distintos se tratasse.
O pensamento humano…
O conhecimento humano…
Desde que me lembro de ser gente que este pequeno órgão divagava de questão em questão; de certeza em certeza; de dúvida em dúvida; de imaginação em imaginação. Durante anos e como não entendia a palavra como definidora de conceitos, saltitante entre aquilo que era inato e aquilo que pretendia conhecer.
O salto deu-se através de um reaprender, as palavras são afinal o motivo do nosso maior progresso bem como a nossa maior limitação.
As palavras e o conhecimento…
Nessa reaprendizagem acabei por complicar o que não era para complicar porque afinal como seria possível dominar o conceito térmico de cada palavra… não descobri outra forma. Retira-se o conhecimento inato e aplica-se o domínio da regra.
E surge a regra do conceito…
Céus os anos que eu demorei para mais ou menos reter a regra e mais ou menos saber aplica-la… anos. Seja como for e porque o cérebro precisa de alimento, este órgão esfomeado a quem lhe oferecia sacrifícios num altar, cada vez que devorava um livro qualquer. E assim surgiu Platão, ò magnifico Platão que me deste o sonho, a utopia em que cada homem sabe exactamente o que é, sem ter avidez por mais, onde o conhecimento são as escadas que vamos subindo e cada degrau é mais uma descoberta.
No meio dos livros do meu avô descobri “A alegoria das cavernas”, garota ainda com cerca de 10 anos e li a história como se de uma aventura se tratasse e com os finais que eu já sabia gostar, os tristes em que o herói morre! Já nessa altura e muito provavelmente impregnado no meu Ser, embebia a cultura europeia que gosta dos finais tristes porque deles retira a lição para a libertação dos seus pecados.
Depois veio o “Banquete” que rapidamente abandonei durante anos porque com aquela idade não percebia nada de amores e achava tudo aquilo muito estranho. Dessa minha primeira descoberta muito pouco satisfatória só ficou mesmo como tinha surgido o feminino e o masculino na mitologia e pouco mais.
Entre Platão, Júlio Verne, John Steinbeck, Eça de Queirós, Harriet Stowe, Enid Blyton, Louisa May Alcott, Jane Austen, Condessa de Ségur e tantas outras e outros autores juvenis, lá inseri e ainda hoje tenho quase a certeza que foi pela pequena dimensão do volume, “o Príncipe” de Maquiavel.
De repente o cálculo, entra na equação bem como as questões das motivações humanas e da melhor forma que em censura à palavra calculismo, passei a denominar a “melhor forma de levar água ao meu moinho”. Demorei anos para tentar impregnar o pejorativismo dessa palavra sem sucesso, porque afinal nunca encontrei nada de errado no calculismo, bem pelo contrário sempre achei uma forma sábia de se viver em sociedade.
O meu avô que achava piada a estas minhas investidas culturais e porque era um bom falante e adorava (creio eu porque o tempo o permitia) instruir-me para poder ter com quem debater, em pouco tempo passou-me “A arte da guerra” de Sun Tzo e para não haver desvirtualizações éticas, ao mesmo tempo “A Utopia” de Thomas More. Este último foi o primeiro livro dos denominados complicados (nada mais falso), que dei à minha filhota Inês para ler. Tal como eu simplesmente adorou-o. Afinal fala de uma Ilha onde o sonho existe e veja-se descoberta por um Português.
Os neologismos surgem, com a pré-adolescência, afinal as palavras que existiam já não me chegavam, a primeira que recordo é a veremente, uma mistura de veemente com verdade. Pensava eu (e ainda penso) que com essa palavra juntei força à verdade, sim porque a verdade surge quase que automaticamente ao mesmo tempo que as hormonas aos pulos na adolescência onde os adultos nunca têm razão e nós o futuro, somos os grandes detentores das certezas.
Nessa altura infelizmente o meu avô Toninho morre e para além da ausência do corpo deixa-me na solidão da mente. Nunca arranjei substituto para essa falta e na carência de mais, investi sobre os livros como se não houvesse amanhã.
Kant surge como Luz entre as nuvens das incertezas daqueles que perdem quem mais amam, e com ele surge em todo o seu fulgor o meu racionalismo que assentava como uma luva no seu pensamento. Durante anos e conhecendo eu bem este método, o racionalismo serviu-me para tudo na perfeição, inclusive para esconder a dor.
Era inevitável Engel seguir-se a Kant e de repente entre estes dois e Aristóteles finalmente fez sentido, os passos lentos da humanidade e delineou-se pela primeira vez os tanques de pensamento e os ciclos históricos. Como eu costumo dizer pela primeira vez consegui ver a floresta e não somente a árvore, convencida que estava das minhas tentativas de auto-descoberta juvenil. Finalmente e veja-se com cerca de 16 anos, descubro que o mundo de facto existe e há muito tempo como se no tempo estivesse a roda para todo este mecanismo.
Entre a Razão, o Tempo e a Mecânica fez-se o mundo tal como o conheço hoje, claro que agora com alguns acrescentos de suma importância mas esses ficaram para mais tarde.
Cascais, 04 de Março de 2011
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