quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Deus absconditus

Há uns dias para cá que estou mesmo zangada.

Estou zangada com este orçamento. Estou zangada com o facto do meu voto ter ido para as urtigas. Estou zangada com o Passo que segue inSeguro para Portas que não interessam abrir.

Eu votei em Menos Estado, melhor Estado, eu votei em dar de uma vez por todas volta a isto, eu votei na TSU, eu votei numa IDEIA.

Quando o ministro Vítor Gaspar anunciou no dia 17/10/2011 as medidas para OE, houve logo aí um número  que me deu cabo do juízo – 0,4 % sob o PIB de cortes em consumos intermediários – 0,4%?!? Estamos a brincar, não!!!!

Quando ouvi dizer que a TSU não era para agora porque não havia forma para suportar essa não entrada de cash na SS, para além de zangada, fiquei doente.

Eu até entendo que uns quantos palhaços não percebem que numa economia em recessão, com o desemprego a rebentar, sem capacidade de crédito e forma de alterar politicas monetárias, a solução da baixa da TSU pareça uma miragem dum camelo nas dunas com um vodka martini entre as bossas – agora uma coisa é certa, com tão pouco espaço de manobra também é evidente que não haveria muito mais a fazer do que diminuir o custo do trabalho e sim – pelo lado do ESTADO.  Menos Estado, melhor Estado!

Mas não, as medidas para o crescimento do país foram:

Para o sector privado, foram direitinhas ao do bolso de quem – do trabalhador – e isto numa economia que tem o desemprego na ordem dos 13% onde realmente a “brilhante” ideia de mais 30 minutos de trabalho diário, vai beneficiar terrivelmente o aumento significativo do mesmo! Brilhante, os meus parabéns, senti-me revigorada com esta medida, saída do tal deserto que acima citei.

Há uns anos para cá pergunto-me se terei mesmo lido os mesmos livros de economia, se não terá sido um crasso erro da minha parte a interpretação que dei aos mesmos, se por acaso não sofro do mal de iliteracia que há tantos anos espanta o nosso país.

Cheguei à conclusão que não. O que há sim, são para aí muitas falácias, disparadas como se fossem leis absolutas sem alternativas à vista.  

Pois está à vista meus senhores, foi dita por vós, e foi com elas que conseguiram o meu voto – e é por isso que eu estou mesmo zangada.

Mas então não é uma evidência que baixar o custo de trabalho através da TSU, era uma medida revigorante para o crescimento da economia? Claro que sim, só não era para o Sócrates nem para os socialistas que agora fazem um tal alarido sobre o seu sentido de voto neste OE, à laia de birrinha de meninos mimados, já que não votaram no nosso que igual ao vosso, agora também não votamos em vocês. Dai-me paciência, muita paciência.

Já agora acrescento, que para além da baixa da TSU, seria sensato motivar uma diminuição no horário de trabalho, com a respectiva diminuição de salário como é evidente, especialmente nas empresas produtoras e transformadoras, sendo que a contribuição (diga-se obrigatória para usufruir de uma maior diminuição da TSU) em que as mesmas outorgariam, que por cada 3 empregados teriam que contratar mais 1 – e porque não! Acham que os portugueses são assim tão estúpidos e egoístas que não adeririam a esta medida. É inteligente, sensata e promotora da saída desta recessão – o que é bom para todos.

Mas não, contra tudo aquilo que já li – e veja-se para uma economia de mercado liberal – o que é que se faz: TSU, nem sei o que isso é e trabalha lá mais cerca de 16 dias por ano que é para o desemprego aumentar. Magnífico, esplendoroso mas que solução divinal!  

Para o sector público – lá foram à vidinha mais 15% dos ordenados para o provisório o definitivo. Aqui tenho que ser sincera, não discordo – ou é isto ou é mais despedimentos – agora discordo da forma.

Não vos ficava bem senhores que governam a nossa nação graças ao nosso voto em vós, que começassem, por uma diminuição de 30% de todos ordenados dos órgãos de soberania (e são todos mesmo, antes que venham para aí alguns dizer que são mais iguais do que outros) e já agora o respectivo anúncio do FIM de todos os subsídios, subvenções, ajudas de custo e outros dinheirinhos a mais que por aí florescem como cogumelos?

Claro que vos ficava bem!

Pela primeira vez em muitos anos nesta nossa amada Pátria, o exemplo vinha de cima e para todos seria mais fácil aceitar o SACRIFÍCIO, quando se vê e confirma-se que começa por quem comanda – mas isto já são técnicas de liderança efectiva que para quem não teve uma educação clássica pode sempre recorrer-se dos livros de bolso dos self-maide man americano e as suas tácticas de venda agressiva.

Pois é meus senhores, mas que brilharete andam Vossas Excelências a fazer.

Bem agora, agora também há muito pouco a fazer. Os Gregos enlouqueceram de vez e ainda bem, porque assim escusamos nós de ficar malucos e o mais certo é isto tudo ir para as urtigas, porque no fundo os loucos foram mesmo todas as Excelências que deixaram chegar isto a este ponto. Valha-nosDeus absconditus!

Pensamentos dispersos II

Nesta senda de livros devorados entre horas inertes em que a imaginação plana para além do corpo, não posso deixar de referir a descoberta dos de ficção… o primeiro que tenho de salientar e não porque tenha sido o primeiro a ser lido, nada mais falso, mas o primeiro que me trouxe a crueza do ser humano na eteriedade da palavra: Milan Kundera.

Foi-me apresentado lá por volta dos 16 por uma professora de liceu de jornalismo, de quem não me lembro o nome nem por quem tivesse especial simpatia, mas que fez a magnífica acção de nos obrigar (à turma) a fazer um trabalho de comparação entre filmes e obras. As opções eram “Em nome da Rosa” de Umberto Eco, que já conhecia e gostava e “A insustentável leveza do ser” de Milan Kundera.

Como sempre optei por aquilo que é mais complicado para se executar na vida. Claro que optei por aquilo que não conhecia. Heranças dos valores dos meus avós, em que o facilitismo não era de facto um modo de vida. Bem dita herança, Milan Kundera entrou na minha vida e invadiu-a por completo.

Escusado será dizer que li e tenho tudo do autor e que o meu favorito não foi a “Insustentável leveza do ser” mas sim “A Imortalidade” em que tal como o autor concordava que aquele sim, deveria ter o título do primeiro.

Esta crueza na forma como as personagens são apresentadas, passou a ser a forma como eu observava os outros, sem julgamento e sem a cor da fantasia. Passar a ver os outros tal como eles são, sem preconceitos, rigorosamente como se apresentam.

Essa clareza é fundamental ainda hoje. É ela que me permite a apreensão de tantas realidades, das histórias de tantos e até das minhas, não como protagonista, nem pensar, mas antes quase como se interiormente fosse um narrador atento ao pormenor do gesto, do olhar da palavra.

Por incrível que pareça, foi com Milan Kundera que passei a ver a “árvore” neste caso, o ser humano per si. E sempre com muita curiosidade, acrescente-se, pois quase sempre é surpreendente mesmo quando previsível.

Céus, quando eu penso naquilo que as palavras dos outros me dão, na sua forma estruturada, no seu significado, no seu jogo de sobreposições de imagens, realidades, nas suas invenções, no sonho, na transposição que o ser humano é, e naquilo que pretendem alcançar, as eternas perguntas de quem sou, para onde vou, de onde vim, o que faço aqui…

A importância dos outros…

Como seria possível para mim ter tempo de saber já tanto se não fosse o tempo que os outros dedicaram em deixar-me lê-los. Seria impossível apreender tanto em tão curto tempo que o meu corpo perece.

A herança dos outros para além do tempo…

Às vezes o pensamento divaga naquilo que já foi perdido, às vezes ponho-me a pensar em quantos papiros na biblioteca de Alexandria que se perderam de suma importância para o Homem.

Quantos séculos perdidos em descobrir aquilo que por outros já fora descoberto…

Senão repare-se, somente no Sec. XVII e através da dialéctica de Descartes, que diga-se de passagem sempre me irritou como filósofo, mas fora estes apartes, só nessa época o homem considerou para todos os efeitos que no conhecimento do “objecto”, este não era inerte mas sim activo, e que nesse processo havia a mecânica do que hoje vulgarmente chamamos de feedback. Impressionante só no Sec. XVII o homem conseguiu colocar por palavras algo que fazemos desde os primórdios do tempo.

Essa lentidão da diagnose das palavras, espanta-me. O que se terá perdido ao longo dos tempos quer por catástrofes naturais, quer por pior pela catástrofe causada pelos fanatismos humanos…

Na ciência, extraordinário pleno Sec. XVI, se pensarmos não foi assim há tantos anos, o Heliocentrismo por Copérnico, que coitado pagou com a vida uma evidência, que o fanatismo religioso não permitia. E será que nos papiros de Alexandria isso já não estava descoberto, tenho muitas dúvidas que não.

Esta herança das palavras são o conhecimento do nosso futuro, nenhuma pode ser desperdiçada, nem mesmo aquela que nos parece uma evidência ou uma perfeita idiotice no momento.

É na troca dessa palavra que os homens vão lentamente progredindo e quem sabe um dia talvez esse progresso não nos leva à final evolução de ver respondidas as perguntas de que vive a “Mater de todas as ciências” a filosofia.

Este texto foi feito com a música que o Albertino Silva foi colocando para nosso deleite no faceboock. Os meus agradecimentos pela óptima música! Ela também é uma componente muito importante para mim, ela e qualquer outra forma de arte mas isso fica para outro dia.

Cascais, 13 de Março de 2011

Pensamentos dispersos I

Nunca compreendi bem porque e provavelmente nem tenho que o fazer o porquê desta minha divisão cerebral. Razão tinha o Pessoa em fazer os seus heterónimos, pois afinal resta sempre a pergunta será que ele era mais de algum deles ou nenhum de todo.

Seja como for os meus pensamentos dividem-se pelo menos em 4, o lado utópico/anarca, o lado racional, o lado social e o lado místico, quase como se de 4 indivíduos perfeitamente distintos se tratasse.

O pensamento humano…

O conhecimento humano…

Desde que me lembro de ser gente que este pequeno órgão divagava de questão em questão; de certeza em certeza; de dúvida em dúvida; de imaginação em imaginação. Durante anos e como não entendia a palavra como definidora de conceitos, saltitante entre aquilo que era inato e aquilo que pretendia conhecer.

O salto deu-se através de um reaprender, as palavras são afinal o motivo do nosso maior progresso bem como a nossa maior limitação.

As palavras e o conhecimento…

Nessa reaprendizagem acabei por complicar o que não era para complicar porque afinal como seria possível dominar o conceito térmico de cada palavra… não descobri outra forma. Retira-se o conhecimento inato e aplica-se o domínio da regra.

E surge a regra do conceito…

Céus os anos que eu demorei para mais ou menos reter a regra e mais ou menos saber aplica-la… anos. Seja como for e porque o cérebro precisa de alimento, este órgão esfomeado a quem lhe oferecia sacrifícios num altar, cada vez que devorava um livro qualquer. E assim surgiu Platão, ò magnifico Platão que me deste o sonho, a utopia em que cada homem sabe exactamente o que é, sem ter avidez por mais, onde o conhecimento são as escadas que vamos subindo e cada degrau é mais uma descoberta.

No meio dos livros do meu avô descobri “A alegoria das cavernas”, garota ainda com cerca de 10 anos e li a história como se de uma aventura se tratasse e com os finais que eu já sabia gostar, os tristes em que o herói morre! Já nessa altura e muito provavelmente impregnado no meu Ser, embebia a cultura europeia que gosta dos finais tristes porque deles retira a lição para a libertação dos seus pecados.

Depois veio o “Banquete” que rapidamente abandonei durante anos porque com aquela idade não percebia nada de amores e achava tudo aquilo muito estranho. Dessa minha primeira descoberta muito pouco satisfatória só ficou mesmo como tinha surgido o feminino e o masculino na mitologia e pouco mais.

Entre Platão, Júlio Verne, John Steinbeck, Eça de Queirós, Harriet Stowe, Enid Blyton, Louisa May Alcott, Jane Austen, Condessa de Ségur e tantas outras e outros autores juvenis, lá inseri e ainda hoje tenho quase a certeza que foi pela pequena dimensão do volume, “o Príncipe” de Maquiavel.

De repente o cálculo, entra na equação bem como as questões das motivações humanas e da melhor forma que em censura à palavra calculismo, passei a denominar a “melhor forma de levar água ao meu moinho”. Demorei anos para tentar impregnar o pejorativismo dessa palavra sem sucesso, porque afinal nunca encontrei nada de errado no calculismo, bem pelo contrário sempre achei uma forma sábia de se viver em sociedade.

O meu avô que achava piada a estas minhas investidas culturais e porque era um bom falante e adorava (creio eu porque o tempo o permitia) instruir-me para poder ter com quem debater, em pouco tempo passou-me “A arte da guerra” de Sun Tzo e para não haver desvirtualizações éticas, ao mesmo tempo “A Utopia” de Thomas More. Este último foi o primeiro livro dos denominados complicados (nada mais falso), que dei à minha filhota Inês para ler. Tal como eu simplesmente adorou-o. Afinal fala de uma Ilha onde o sonho existe e veja-se descoberta por um Português.  

Os neologismos surgem, com a pré-adolescência, afinal as palavras que existiam já não me chegavam, a primeira que recordo é a veremente, uma mistura de veemente com verdade. Pensava eu (e ainda penso) que com essa palavra juntei força à verdade, sim porque a verdade surge quase que automaticamente ao mesmo tempo que as hormonas aos pulos na adolescência onde os adultos nunca têm razão e nós o futuro, somos os grandes detentores das certezas.

Nessa altura infelizmente o meu avô Toninho morre e para além da ausência do corpo deixa-me na solidão da mente. Nunca arranjei substituto para essa falta e na carência de mais, investi sobre os livros como se não houvesse amanhã.

Kant surge como Luz entre as nuvens das incertezas daqueles que perdem quem mais amam, e com ele surge em todo o seu fulgor o meu racionalismo que assentava como uma luva no seu pensamento. Durante anos e conhecendo eu bem este método, o racionalismo serviu-me para tudo na perfeição, inclusive para esconder a dor.

Era inevitável Engel seguir-se a Kant e de repente entre estes dois e Aristóteles finalmente fez sentido, os passos lentos da humanidade e delineou-se pela primeira vez os tanques de pensamento e os ciclos históricos. Como eu costumo dizer pela primeira vez consegui ver a floresta e não somente a árvore, convencida que estava das minhas tentativas de auto-descoberta juvenil. Finalmente e veja-se com cerca de 16 anos, descubro que o mundo de facto existe e há muito tempo como se no tempo estivesse a roda para todo este mecanismo.

Entre a Razão, o Tempo e a Mecânica fez-se o mundo tal como o conheço hoje, claro que agora com alguns acrescentos de suma importância mas esses ficaram para mais tarde.

Cascais, 04 de Março de 2011